Crônica: Alerta no Tabuleiro, vida chamando!



Por Danielle Fuchs


Sabe aquele dia com cara de domingo? Silencioso, monótono, com excesso de calorias e nenhuma motivação? Pois é! Acordei nessa vibe sábado desses e, por total falta do que fazer, comecei a ‘ouvir’ o silêncio. Calma, vou explicar!


Estava na cama, tentando não pensar por um dia ao menos nos horrores do Covid-19, – aproveitando uma folga merecida do trabalho –, quando me dei conta da dificuldade que sentimos em viver o ócio. Das três uma: ou estamos trabalhando, ou socializando ou nos ‘pré-ocupando’ com alguma coisa. É certo que em tempo de pandemia preocupação é sinônimo de prevenção, mas antes mesmo desta tragédia já tínhamos o péssimo hábito de nos atormentarmos mentalmente, antecipando coisas ruins que podem nem acontecer. Salve a meditação que nos tira dessa roubada! Mas, voltemos ao ócio e ao meu sábado atípico.


Ouvir o silêncio pode ser transformador, sabia? Fiz descobertas incríveis naquela manhã ‘meia boca’ que não prometia nada de bom. Que o meu então namorado, que estava ao meu lado, me perdoe pelo desabafo e pela sinceridade, mas tem horas que nem muito amor supera o tédio.


Aliás, esqueci de mencionar outro fato representativo no contexto: estava nublado. Detesto acordar com o dia cinzento, à lá ‘fog londrino’. Pois nem isso apagou o brilho do momento. E, falando em brilho, vamos começar por ele.


Achei que nada poderia substituir o deleite de ver o sol pela janela depois de dias chuvosos. Ledo engano. O referido sábado começou com a grata surpresa de enxergar arte no que não passava de uma poça d’água. É isso mesmo! Levantei-me, espreguicei-me bastante, cumpri com o típico ritual da manhã e saí pela porta para ver a luz do dia. Depois de resmungar mentalmente pelos motivos descritos, comecei minha jornada extrassensorial.


Normalmente não entendo o que os especialistas veem na maioria das obras de arte. Acho que não tenho sensibilidade para tanto. Ou não tinha, enfim! Olhei fixamente para uma poça d’água e me peguei totalmente hipnotizada por ela. Enxerguei o reflexo do céu, emoldurado por folhas de árvores e flores, com um lindo pássaro pousado no fio de luz. Aparentemente uma cena comum, mas que ali ganhou brilho e contornos dignos de um grande artista plástico – vale ressaltar que não ingeri nada alcoólico ou alucinógeno!


A imagem bucólica ficou na minha cabeça e logo me despertou novo olhar para aquele dia ‘feio’ e para aquele lugar até então sem muito charme. Já fazia alguns meses que passava os finais de semana no meu então namorado, mas ainda não havia olhado o lugarejo que começa logo ali, depois da BR-101, pouco antes do portal que dá boas-vindas a Camboriú. Falo do Tabuleiro, bairro que me surpreendeu pelo comércio pujante e ar bucólico que amo.


Dito isto, vamos voltar a minha odisseia contemplativa. Diante da beleza daquela ‘pintura’ na água de chuva, resolvi aguçar também os ouvidos, já que meus olhos haviam me presenteado com tamanho esplendor.


Adivinhem só quem me tirou desse breve momento meditativo? O papagaio do vizinho da frente, que gritava desesperadamente por café. – Café, café, me dá café! –, reclamava. Já ouvi papagaio falar antes e sei que essa espécie tem um aparelho fonador especial e apresenta inteligência acima da média entre as aves, mas aquela súplica em plena manhã cinzenta me gerou tamanha empatia que quase me pus a fazer café para o louro. O bicho literalmente tirou as palavras da minha boca, pensei alto. Ainda bem que não faltava café na casa do meu ex.


Poucos minutos depois, ainda tomada pela solidariedade ao vizinho penoso e fortalecida na convicção de ouvir o silêncio, escutei um grito rouco e meio espaçado. O que seria isso? Pasmem, era o galo do outro vizinho! O mais engraçado é que além de cantar falhadamente o animal estava algumas horas atrasado. Pelo que me lembro, o galo deve nos acordar cedinho, certo? Errado! Este galo canta quando quer e se dá ao direito de desafinar com orgulho. Que acorde cedo quem precisar e deixem o galo dormir o quanto quiser. Sem essa de impor autoridade e assustar a concorrência. Esse tempo passou. Hoje é cada um na sua. Pensa na personalidade do bicho! Mas nem todos pensam assim.


Pela madrugada


Pouco antes, às 4 horas da madrugada, dois gatos se pegaram com unhas e dentes no portão. Um preto e branco, o outro amarelo malhado. Acordei com o gritedo e logo pensei que era disputa por uma fêmea. Pode ser, ou não! Gatos são animais muito territorialistas, e a chegada de novo bichinho no seu espaço pode representar ameaça.


Qualquer semelhança com o ser humano (masculino) é mera coincidência. Opa! Coincidências não existem! Enfim, melhor seguir o baile para não arrumar encrenca com o sexo oposto.


Enquanto refletia sobre a personalidade paradoxal do galo e tentava traçar um paralelo com o universo dos gatos, ouvi um lamento profundo do outro lado da rua, que rapidamente me armou como boa defensora dos fracos e oprimidos que sou. Quem despejaria tanta tristeza portão afora sem medir as consequências de tamanha exposição?! Imaginem quão grande era a angústia para romper as fronteiras da larga rua de paralelepípedo!


A tristonha em questão era uma Border Collie arrasada por estar presa e longe do dono. A cadelinha, conhecida por pastorear ovelhas, odeia ficar parada. Considerada uma das raças mais fiéis e inteligentes, ela é cheia de energia e tem necessidade de estímulo físico e mental. Não conheço o dono da bichinha mas, se porventura ele ler este texto, peço que não deixe mais a menina presa, pois ir contra a própria natureza resulta em depressão e pode acabar em doença. Aliás, isso me lembrou alguém. Claro, eu mesma!


Veja só que linda manhã eu tive, apenas observando o silêncio e a vida animal. Perceba que o silêncio em questão não era o da rua, mas, sim, o da minha mente. Substituí o barulho dos pensamentos e preconceitos repetitivos por nada mais que meia hora e fui presenteada com ricos ensinamentos que precisei desesperadamente dividir com vocês. Dentre os inúmeros insights que recebi naqueles breves momentos, compartilhados com meu namorado, destaco e resumo 5 deles que podem (assim espero) arrancar um sorriso seu e, quiçá, melhorar o seu dia. Confira, reflita e seja feliz hoje, esteja onde estiver, sem medo de ser piegas.


1 – A beleza está nos olhos de quem a vê. Olhe com mais atenção o que está bem a sua frente.

2 – Às vezes tudo o que você precisa é de um café quentinho. Respire e aproveite!

3 – Ter personalidade é viver no embalo de sua própria música. Ouça seu coração!

4 – Cada um tem seu próprio espaço neste mundo, encontre o seu e brigue por ele se preciso for!

5 – Respeite sua própria natureza e não se prenda ao passado. A vida é liberdade e é para frente que se anda. Avante!


Fonte: www.portalimulher.com.br

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